É difícil terminar Adolescência sem um nó na garganta. A minissérie da Netflix, apesar de curta, constrói um peso emocional que se estende além da tela. A câmera que nunca desliga, os silêncios incômodos e a brutalidade sem filtros são parte do que faz a experiência ser tão marcante – mas há um elemento menos evidente que torna tudo ainda mais devastador.
Por trás da trilha sonora sutil da série, esconde-se um detalhe que conecta todos os personagens à vítima Katie Leonard. Mesmo ausente em tela, sua presença ecoa ao longo dos episódios por meio das músicas escolhidas com cuidado cirúrgico pela direção. A personagem, que aparece brevemente na série em apenas duas ocasiões (duas fotos e uma gravação de câmera de segurança) sofreu um “apagamento” proposital. Essa escolha, na verdade, foi feita para reforçar a ausência de sua morte.
Assim como a série se destaca na qualidade técnica pela filmagem e roteiro, a trilha sonora também é parte importante desse sucesso. O diretor Philip Barantini revelou que a voz que ouvimos nas faixas instrumentais mais marcantes é a de Emilia Holliday, atriz que interpreta Katie. É como se Katie, mesmo sem aparecer, nunca deixasse a narrativa.
A personagem molda o silêncio, invade a trilha e se impõe como uma memória constante. A escolha de dar a ela essa presença sonora em vez de cenas é um recurso que transforma seu silêncio em algo ensurdecedor, onde sua presença se torna constante.
A trilha de Adolescência foge do convencional. Não há exagero ou trilhas dramáticas, com a música surgindo apenas em momentos-chave, como se o som tivesse que conquistar seu espaço. Um desses momentos acontece ao fim do segundo episódio, quando uma versão coral de “Fragile”, de Sting, é tocada.
A canção embala a caminhada da câmera até o estacionamento onde Katie foi assassinada. A versão é cantada por um coral formado por alunos da escola, e o trecho final é interpretado por Emilia Holliday. Mesmo nos momentos em que a trilha não tem a participação da atriz, as escolhas são feitas de forma consciente e com próposito.
No último episódio, a música “Through the Eyes of a Child”, da cantora AURORA, começa a tocar quando Eddie, o pai de Jamie, entra no quarto do filho. Ali, tomado pelo desespero, ele chora pela primeira vez longe das câmeras. A letra fala justamente sobre enxergar o mundo pelos olhos de uma criança, o que acaba se tornando uma ironia amarga diante da radicalização que seu filho sofreu justamente naquele espaço.