Um dos aspectos mais marcantes dos Defensores da Netflix era a forma como as séries tratavam seus vilões. Wilson Fisk se destacou por sua complexidade e Kilgrave, em Jessica Jones, trouxe um elemento inovador de horror para a franquia.
Agora, com a nova fase da Marvel no Disney+, havia expectativa de ver vilões à altura dessas histórias. O retorno de Fisk era esperado de forma grandiosa, e Muso, o vilão declarado dessa temporada antes da estreia, também tinha grande potencial.
O personagem gerou curiosidade, especialmente pelos paralelos com a versão dos quadrinhos. Nas HQs, Muso surgiu durante a fase escrita por Charles Soule entre 2016 e 2018 como um vilão sem identidade e com comportamento perturbador, que pintava murais com o sangue de suas vítimas e possuía habilidades que o tornavam um inimigo quase invencível para o Demolidor.
Em Demolidor: Renascido, porém, a escolha de apresentar Muso como Bastian Cooper, um jovem rico emocionalmente instável, trouxe uma mudança significativa. Ao contrário do mistério da versão dos quadrinhos, o Muso do MCU tem um passado claramente delineado, permeado pela rejeição dos pais e sua obsessão por arte.
Sua origem como vilão se dá no momento em que ele encontra um livro de psicologia que se torna o estopim para se tornar um assassino. Sua aparição como paciente de Heather Glenn serve para conectar o personagem à trama principal, mas também limita sua presença.
Uma versão menos ameaçadora
O que torna Muso tão aterrorizante nos quadrinhos é justamente sua falta de motivação clara e o fato de que ele parece escapar de qualquer lógica. Sua aparência também é parte fundamental de sua identidade como vilão: pele branca como giz, olhos negros com pupilas vermelhas e uma presença quase inumana. Em contraste, a série opta por um visual mais mundano e retira completamente qualquer indicativo de que o personagem tem poderes.
Nos quadrinhos, ele possui habilidades que distorcem a percepção sensorial ao seu redor, tornando-o invisível aos sentidos do Demolidor. Isso cria um desafio real para Matt Murdock, que depende justamente desses sentidos para enfrentar seus inimigos.
Esses elementos eram os grandes responsáveis pela expectativa do público, que esperava ver O Demônio de Hell’s Kitchen elevando sua habilidade ao máximo para enfrentar um vilão sem precedentes. Sem esses elementos, a versão televisiva de Muso se torna apenas mais um psicopata mascarado, o que, em um universo já lotado de vilões genéricos, é uma oportunidade desperdiçada.
A presença do vilão em Renascido acaba funcionando mais como gatilho para os dramas dos protagonistas do que como um arco próprio. Essa abordagem pode não ser necessariamente ruim, mas tira grande parte do impacto do personagem. Sua morte rápida nas mãos de Heather piora ainda mais a situação, encerrando seu arco de forma abrupta, sem qualquer relevância para o universo – poderia ser qualquer outro psicopata em seu lugar.
O que poderia ter sido
A adaptação de Muso para o MCU tinha potencial para ser uma das mais impactantes desde Kilgrave. Em vez disso, o que foi entregue é um personagem com origem genérica, ausência de poderes e motivações pouco inspiradas.
Com a quantidade de adaptações que a Marvel tem feito a partir dos quadrinhos, é natural que algumas mudanças ocorram. No entanto, as escolhas precisam ser feitas de forma mais inteligênte, evitando que seu impacto se limite ao hype que precede a temporada.
Dessa forma, Muso se junta a grande seleção de vilões desperdiçados que a Marvel tem colecionado, ao lado de Gorr (Thor: Amor e Trovão), Abominável (Shang-Chi e Mulher-Hulk), Kro (Eternos), Madarim (Homem de Ferro 3) e muitos outros.
Ao retirar tudo o que tornava Muso especial, Renascido perde a chance de criar um roteiro memorável, uma temporada emblemática e um vilão realmente ameaçador.
Demolidor: Renascido: está disponível no Disney+.